DE VOLTA ONDE TUDO COMEÇOU
O mestre em Matemática que orgulha o médio sertão
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| O ex-aluno do CE Dr. Paulo Ramos volta à escola só que desta vez com o título de mestrado |
Já imaginou virar mestre em Matemática na fase adulta e quando criança não gostar da matéria? Foi assim na vida de Renato Darcio, um patoense de 37 anos que mostra que 2+2=4. E não tem para onde correr. Ele era arisco a mais verbalmente explicita das ditas ciências exatas. Porém, um certo dia se apaixonou e dela fez a sua profissão.
Confesso que se recebo elogios pela forma que escrevo, matemática nunca foi o meu forte.
Deixa quieto. O assunto aqui é Renato Darcio. Hoje o menino que virou um homem respeitado e pai de família tem feito da matemática o seu dia a dia e o seu ganha pão.
O orgulho de seus pais Sancho Santana Silva, um pequeno comerciante, e da dona de casa, Eurides Noleto Silva, não é para menos. O filho é motivo de satisfação também para família que ele construiu ao lado da esposa Elcitânia Lima Correia Fonseca, uma professora que lhe deu dois filhos: Pietro (7) e Ellen (5).
A criança tímida deu lugar ao homem alegre e comunicativo. Suas buscas pelo conhecimento o tornou Graduado em Licenciatura em Ciências/Matemática pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA); Especialista em Matemática pela Universidade Federal do Piauí (UFPI); Especialista em Gestão Escolar pelo Instituto de Mercados e Capitais do Rio de Janeiro (IBMEC/RJ), e agora, Mestre em Ensino de Matemática pela Universidade do Estado do Pará (UEPA).
Mas para chegar ao mestrado o estudante Renato deu os primeiros passos no CE Dr. Paulo Ramos, onde estudou o ensino fundamental 1, e como a grande maioria dos estudantes de São João dos Patos também passou pelo CE Edison Lobão onde fez o ensino fundamental 2, para em seguida, o ensino médio.
São anos e mais anos de estudo. Todo esforço tem uma recompensa.
Já na vida profissional passou pelas escolas do município, Colégio Técnico de Floriano (PI) e ainda, UEMA. Atualmente, é professor de ensino médio da rede estadual de ensino, e professor de ensino médio e superior da rede federal de ensino (IFMA).
Renato Darcio também foi diretor da Unidade Regional de Educação (URE) do médio sertão. Entre 2011/2014 procurou contribuir para a melhoria de indicadores de aprendizagem do ensino na região. O trabalho realizado foi tão bem aceito que acabou virando modelo para todo o estado do Maranhão, após encabeçar revisões de mais de 500 alunos do médio sertão maranhense. O carinha se tornou referência.
Seu trabalho, segundo afirma em conversa comigo, é lutar pela motivação de jovens que como ele tiveram dificuldades durante a infância e adolescência, principalmente, para aqueles que cresceram entre os cadernos e o trabalho ainda cedo.
Já aos 12 anos, Renato ajudava a família no mercado público. Isso não o diminuiu em nada, pelo contrário, o fez crescer. Sua transformação de vida veio pela educação. Um exemplo a ser seguido.
A seguir, um rápido bate papo com o homem que deve ser lembrado pela capacidade acadêmica, mas mais do que isso, como um bravo e inteligente sertanejo:
O MESTRE RESPONDE:
RM: A matemática sempre foi um "bicho de sete cabeças" para muitas pessoas, eu me incluo. O que atribui para você não ser?
RD: A matemática para mim também foi um bicho de 7 cabeças. Sempre tirei notas baixas no ensino fundamental e médio.
RM: E como veio a mudança?
RD: A mudança veio com uma decisão: como estava virando adulto e tinha que arrumar trabalho, tive que aprender, com estudos individuais. Aproveitava para me desafiar, estudava nos momentos que eu deveria me divertir, abria mão de festas e coisas que adolescentes faziam com frequência.
RM: Você acha que os primeiros professores são a base de tudo na vida estudantil?
RD: A base é importante, os professores são essenciais para a aprendizagem dos alunos, mas não é tão simples obter os resultados, pois a aprendizagem é produto de um conjunto: professores, escola, indivíduo, família e sociedade.
RM: De que forma isso ocorre?
RD: Bem, é complexo: Professores (qualificação); Escola (organização e gestão); Indivíduo (motivação); Família (apoio à escola e ao filho); Sociedade (como ambiente que proporcione vivências positivas ao aprendizado e valorização à escola e seus atores). Mas o que sei é que todos podem. A força de vontade individual é fundamental. Não adianta todos os fatores que citei estarem em total sincronia e você não querer. Mas o contrário é possivel: todos os outros fatores estarem desfavoráveis e você conseguir. É isso, automotivação, ter sonhos, desejos...
RM: Qual é a emoção de um menino simples, um cara do interior, um ex-estudante de escola pública se tornar Mestre em Matemática quando muitos não puderam ser ou não quiseram?
RD: A pós graduação a nível de mestrado ainda é pouco acessível no Brasil, o processo seletivo ainda é complicado por exigir projeto de pesquisa, fato que dificulta o ingresso de professores da educação básica, pois muitos destes não possuem a pesquisa como foco. Outro dificultador é o afastamento para cursar, pois trata-se de cursos de 2 anos (mestrado) e 4 anos (doutorado) e nem sempre as redes de ensino concedem tal acatamento. Além de que o incentivo remuneratório pós aperfeiçoamento ainda é baixo.
RM: Mas você venceu esses obstáculos...
RD: Tive que vencer esses obstáculos também, mas os vi como metas e como investimento, pois o capital intelectual adquirido vale a pena.
RM: O que você quer daqui para frente?
RD: Quero poder compartilhar tudo o que aprendi com alunos e colegas professores.
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| Renato Dacio venceu dificuldades e agora é hora de colher o que plantou |
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| Com a esposa Elcitânia e os filhos Pietro e Ellen: as conquistas são comemoradas em família |
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| Foi no antigo Colégio Dr. Paulo Ramos que Renato deu os primeiros passos na aprendizagem |